Um jornalista dá uma aula de como NÃO defender o aborto

 

Em texto recentemente publicado na revista Amálgama, o jornalista Carlos Orsi resolveu abordar a questão do aborto. O resultado é um texto confuso, do qual a única coisa que fica bem clara é que o articulista quer defender o aborto. Isto, por si só, não seria novidade alguma, ainda mais na imprensa brasileira, que é majoritariamente favorável ao aborto, bem ao contrário da população em geral.

Mas a grande novidade é o tom do artigo. A começar do título – “‘Desde a concepção?’ Sério?” -, o artigo é, do início ao fim, uma tentativa de calar a parte contrária. Carlos Orsi não quer debater, ele quer fazer calar quem não concorda com ele. Vem daí o seu “Sério?”. Tampouco há novidade nisto, mas, para que consiga calar a parte contrária, ele necessita de argumentos consistentes que demonstrem seu conhecimento sobre o assunto. É isto que esperamos ao começar a leitura de seu artigo, afinal, como ele mesmo escreve no subtítulo, “Ninguém que realmente tenha pensado no assunto pode levar essa conversa de “direitos invioláveis da pessoa humana desde a concepção” a sério”. Mas será que ele consegue isto? Não. Ele não chega nem perto, o que contrasta muito com sua pretensão de ter sido, ao que parece, o único que tem “pensado no assunto”.

Um dos comentaristas da página foi direto ao ponto: “Todo texto de abortista é uma confusão dos diabos…”. O comentarista tem razão, mas não toda. O texto de Carlos Orsi vai bem além de ser apenas uma “confusão dos diabos”, dado o tamanho da enrolação. Aliás, acho até que o Encardido ficaria envergonhado de se ver envolvido em coisa tão descabida quanto o que saiu do teclado do jornalista.

A forma de abordar um texto sério e no qual o interlocutor realmente tentou discutir um assunto com propriedade é analisá-lo ponto por ponto, responder aos argumentos propostos, etc. Com o texto de Carlos Orsi é praticamente impossível que isto seja feito, dada a confusão. O texto de Carlos Orsi não é sério, é apenas um apanhado de espantalhos dos mais absurdos e caricatos, recheado com doses generosas de preconceito. É simplesmente indiscutível, principalmente porque discuti-lo com seriedade dar-lhe-ia uma qualidade que ele não possui de maneira alguma. Nem mesmo parece ser um texto feito para adentrar em um debate sério, mas sim para ser levado a uma roda de botequim e mostrado aos amigos. “Vocês viram o que escrevi? Matei a pau!”.

O que se fazer então? Talvez baste mostrar alguns de seus espantalhos, que são abundantes. O texto é apenas uma colagem mal ajambrada de retalhos de pensamentos esparsos, os quais talvez na cabeça de Carlos Orsi – e somente lá – pareçam argumentos. Parece mais uma tentativa desesperada de chamar a atenção do que uma forma de tentar participar de um debate sério. Sinceramente, sinto muito, mas o que se pode fazer com tal artigo é meramente apontar seus defeitos e dizer para o articulista tentar novamente. E novamente. E novamente. Até conseguir mostrar algo que realmente não seja apenas um amontoado de clichês com a pretensão de serem argumentos que supostamente deveriam calar a parte contrária.

Ao menos podemos dizer que Carlos Orsi não está só. Como o comentarista disse, textos de abortistas em sua maioria são apenas uma “confusão”, e o do jornalista seguiu também esta linha. Acho mesmo até que ele foi mais longe do que a simples confusão já esperada. Ele atingiu novos patamares como poderemos ver abaixo.

“A embriologia humana, por incrível que pareça, é algo um pouco mais complicado do que “o espermatozoide entra no óvulo que está esperando no útero e aí vira um bebê”

Faltou o jornalista tentar explicar um pouco da complicação. Faltou ele evitar obviedades tais como “[o encontro do óvulo com o zigoto] não é algo que acontece num instante, como um clique de mouse. É um processo.”. Mesmo? E quem imaginaria tal coisa, não é mesmo?

Ou então ele poderia evitar responder suas próprias questões como se elas fossem a de todos que tenham “pensado no assunto”. Eis um exemplo da aula de Embriologia Humana de Carlos Orsi: “Primeiro, porque o óvulo nem no útero está quando isso acontece, mas na trompa”. Não diga! E com esta frase ele conseguiu acabar com toda a complicação do assunto?

A única certeza que temos é que Carlos Orsi deve ter conseguido passar nas aulas de Biologia. Merece ou não um parabéns?

“o catecismo católico diz que “a vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da concepção”, ele esteja se referindo ao zigoto já formado: uma célula, 46 cromossomos, tão capaz de agência moral, de amar, de sonhar ou sofrer quanto uma das células que você arranca da pele cada vez que se coça”

Sempre me surpreende quando os defensores do aborto trazem a religião para a discussão. Estou mentindo… Isto não me surpreende. Na verdade, já fico esperando. Carlos Orsi conseguiu aguentar três parágrafos, mas acabou cedendo à tentação. Entende-se perfeitamente isto, pois a Igreja Católica é um alvo fácil e atacá-lo garante muitos pontos com uma certa patota, certo?

Mas a questão toda aqui é saber se o que está no Catecismo está ou não errado. Que a vida humana tem seu início na concepção é exatamente o que diz a ciência atualmente. Então, qual o erro no que está escrito no Catecismo? Carlos Orsi não explica. Ele prefere seguir por um caminho estranho e aumentar o vento que alimenta as convulsões de seu boneco-do-posto retórico. Ele passa então a tentar explicar que a viagem do zigoto até o útero é também um processo (não diga!) e que a fixação deste no útero nem sempre é feita com sucesso (não diga!!). E ele ainda ensina: “passando por abortos espontâneos antes mesmo que a mulher desconfie de que está grávida”. Não diga!!!

Eu realmente não sei o que Carlos Orsi pretendia com esta profunda aula de Embriologia Humana. Ele quer liberar os abortos até antes da nidação? Ele quer liberar abortos se o zigoto estiver no meio do caminho entre a trompa e o útero? O que ele quer afinal? Ninguém consegue saber. Mas é ele, claro, que tem “pensado no assunto”. Ok.

“um pouco menos de dois terços de todas as vidas humanas concebidas, e que portanto, segundo a doutrina que os deputados religiosos querem empurrar goela abaixo dos brasileiros”

Não vou mentir desta vez… Não me surpreende mais a capacidade dos que defendem o aborto de escrever inúmeras besteiras em curto espaço. Deve haver algum curso avançado para isto, só pode.

É um golpe bem previsível tentar convencer que defender a vida desde a concepção é coisa de “deputados religiosos”. É pueril e não esconde o preconceito. Mas tudo bem, não é? O preconceito contra religiosos é o único que não virou tabu nos dias atuais. Mas, deixando o preconceito de lado, será que Carlos Orsi achou mesmo que ninguém iria reparar que ele mudou o assunto completamente? Ele estava tentando (pois é… tentando) abordar o assunto pelo caminho científico, mas parece que ele se viu em dificuldades e resolveu jogar para a galera e dizer: “Olha lá! São só deputados religiosos que querem isto! Vocês irão levá-los a sério ou acreditarão em mim?”.

Entende-se porque ele procedeu assim. Sua investida pela Ciência levou-o a tentar justificar o aborto porque ocorrem abortos espontâneos. Se abortos espontâneos ocorrem, deve ser evidente, segundo a Lógica Orsiana, que abortos devem ser justificados, não é mesmo? E ele gastou todo seu vasto conhecimento em Embriologia Humana para isto? É claro que ele iria tentar a cartada da religião. E falhou novamente.

“Não vou nem entrar no imbróglio teológico-metafísico que isso cria: imagine, só a título de preâmbulo, um limbo habitado por bilhões de espíritos de seres que morreram antes de contar, sequer, com os rudimentos dos pré-requisitos de uma personalidade, e o aparente corolário de que se deve batizar toda barriga de mulher imediatamente após o ato sexual, só por via das dúvidas.”

Só podemos agradecer a ele por não tentar abordar o assunto pela ótica da Teologia e da Metafísica. Se fosse algo como este “preâmbulo”, dá para imaginar Santo Tomás de Aquino, no Céu, sendo contido por Nosso Senhor Jesus Cristo e bradando “Me solta! Me solta! Eu tenho de ir lá!”.

É simplesmente ridícula a tentativa de Carlos Orsi de arrumar argumento que preste, ainda mais com esta sanha (paranóia?) de envolver religião. Ele faria bem melhor se decidisse como quer abordar o assunto. Quer falar do aspecto religioso? Quer falar do aspecto da Embriologia Humana? Afinal o que ele quer? Ou ele quer já partir para a Filosofia e tentar explicar que um embrião humano só se torna pessoa em momento posterior? Ou será que ele quer apenas brincar de Deus, como querem em geral todos os que defendem o aborto? Parece que sim, pois até com o destino das almas de seres humanos abortados espontaneamente ele quer se preocupar. Mas ele é um deus bem ruinzinho, até para os padrões abortistas, pois isto de falar em “batizar toda barriga de mulher” mostra bem como ele não atinge nem mesmo o nível de uma criança iniciando em início de catequese.

E aí voltamos a indagar: o que deseja Carlos Orsi? Ele quer provar que ele tem “pensado no assunto” e resolveu que sabe mais que todos os teólogos e com certeza mais do que todos os que professam uma religião? É isto? Parece-me que o jornalista quer correr uma maratona sem nem mesmo conseguir dar uma volta no quarteirão, e é por isto que ele desfia tantos espantalhos por todo seu texto.

““Ah”, ouço alguém dizer, “mas abortos espontâneos são outra coisa. São naturais”. Sim, bem como são naturais o sarampo, o cólera e outras doenças que matariam multidões de bebês, se não houvesse políticas de saúde pública para enfrentá-las. Do mesmo modo, durante séculos a morte de bebês prematuros foi “naturalmente” esperada – o que não impediu a ciência médica de criar formas de mantê-los vivos até que se tornassem viáveis.”

Isto aqui foi sério? Ele queria mesmo dizer algo com o que escreveu? O que tem uma coisa a ver com outra? Eu realmente não sei o que dizer sobre isto, e olhe que o que já li de besteira de gente que defende o aborto faria corar uma Dilma Rousseff. Mas ler este parágrafo de Carlos Orsi é como perguntar a alguém quanto é 2 + 2 e a pessoa responder que está chovendo.

Melhor ir para o próximo…

“Onde estão os investimentos públicos para proteger esses inocentes? Onde, as pesquisas das universidades confessionais para preservá-los, nesta semana crítica? Onde, a lei obrigando toda mulher sexualmente ativa a coletar religiosamente (trocadilho intencional) o fluxo menstrual e levá-lo para análise, a fim de que qualquer zigoto ou blastocisto, perdido ali, receba as devidas exéquias, atestado de óbito, e seja sepultado?”

Então ele voltou a falar de zigotos. Quer dizer… Agora ele está explicitamente misturando Ciência e Religião e esperando dar tudo um bom caldo para que ele consiga um argumento para chamar de seu.

É sempre enfadonho quando um homem adulto tenta se fazer de desentendido. O que podemos ver é que Carlos Orsi demonstra possuir um bocado de confusão mental sobre a matéria.  Não sabe ele que mulheres tomam vitaminas, tomam ácido fólico, procuram alimentar-se bem, fazer um bom pré-natal, tudo isto para ajudar no bom andamento de uma gravidez? É uma ajuda que se dá ao curso natural de uma gravidez, mas que pode ou não ser efetivo. Daí até Carlos Orsi infantilmente gastar todo um parágrafo falando de coleta de fluxo menstrual e afetando uma ironia que devia servir como xeque-mate na parte contrária é coisa que realmente fica ridícula produzida por um jornalista experiente.

Ele sabe bem que muitas vezes um zigoto não se fixa na parede uterina por algum problema de incompatibilidade ou má formação, o que é perfeitamente natural. Ou será que agora, somente agora, seus conhecimentos científicos profundos não se fazem valer? Ou será que porque ocorrem abortos espontâneos então isto por si só basta para justificar abortos por demanda?

Ele parece querer ser original, mesmo que às custas de escrever besteiras. Há mesmo gosto para tudo.

Mas Carlos Orsi é um autor em busca de argumento. Mas espantalhos não são argumentos. Ele, porém, pensa diferente:

“Não estão em lugar nenhum, claro. E não estão porque ninguém que realmente tenha pensado no assunto, com um mínimo de conhecimento e clareza, pode levar essa conversa de “direitos invioláveis da pessoa humana desde a concepção” a sério.”

Deixa eu entender direito: ele realmente levou a sério o que escreveu nos últimos dois parágrafos? Infelizmente, parece que sim. Ele parece mesmo acreditar em suas ironias, mesmo que de má qualidade. O caso é grave mesmo.

Foi ele, Carlos Orsi, que pensou no assunto “com um mínimo de conhecimento”? Sério? E só o que consegue é destilar preconceito religioso, dizer obviedades de Biologia de 2º Grau e achar que porque ocorrem abortos espontâneos então o aborto deve ser liberado? É parar rir ou a piada ainda continua?

Continua. Segurem-se em suas poltronas.

““Vida humana” é qualquer criatura viva que, submetida aos devidos testes e exames, revele-se portadora de um genoma de Homo sapiens. Essa categoria inclui vítimas de morte cerebral que seguem respirando com ajuda de aparelhos, células em cultura, tumores malignos e até a própria placenta, que vive e é geneticamente idêntica ao feto.”

Sinceramente, eu nunca havia lido alguém dizer que tumores seriam vidas humanas. Tampouco células em cultura. Ou placentas.

São células humanas? Com certeza são. Estão vivas? Sim, claro.  Têm vida e são humanas, com certeza, mas se estamos falando de seres humanos – e é disto que os pró-vida dizem quando estão falando da necessidade de proteção à vida humana -, é evidente que tumores, placenta, culturas celulares não são seres humanos. Tumores são autônomos? Tumores desenvolvem-se ordenadamente ou é exatamente o desenvolvimento desordenado uma de suas características? O mesmo para células em cultura ou placenta. Têm autonomia? Terão autonomia? Com tempo e a devida nutrição uma placenta por si só irá desenvolver-se e tornar-se um ser humano, exatamente como acontece com um embrião?

Ele escreveu isto querendo mesmo ser levado a sério? Como eu disse, é enfadonho ver um homem adulto se fazer de desentendido. Na verdade, é até melhor que ele se faça de desentendido. É mais digno do que levar este desfile de asneiras a sério.

Saber diferenciar uma vida humana do que sejam células humanas vivas é coisa básica, mas é Carlos Orsi que tem “pensado no assunto”. Então tá.

A partir deste ponto em seu texto parece que o próprio Carlos Orsi cansou de ficar fazendo piruetas retóricas e construindo espantalhos e resolveu tentar ir por um caminho mais filosófico da discussão. Talvez ele devesse ter tentado ir por este caminho desde o início de seu artigo. Isto seria bem mais proveitoso do que fazer o papelão que até agora fez.

Mas, bem ao contrário do que ele quer fazer acreditar, ele apenas escrever ““Pessoa humana” é outra coisa: requer uma série de características que estão, quase todas, predicadas na existência de um sistema nervoso central funcional.” e achar que, dito isto, toda a discussão seguirá em torno do que ele escreveu é, no mínimo, uma grande ingenuidade. E uma enorme prepotência, ainda mais para quem até há pouco estava dizendo que tumores são vidas humanas.

Seu texto até deu uma virada no tom, mas o conteúdo é sofrível, e sua tentativa morre exaurida na praia. Ele parece mesmo acreditar que é o único que tem “pensado no assunto” e que entendeu todos os ângulos. Há filósofos de alto nível debruçando-se sobre a questão e nada do que se lê por aí chega perto da prepotência do texto de Carlos Orsi quando ele aborda o lado filosófico da questão. Ele tentou abordar a questão pelo lado filosófico em três parágrafos. Três míseros parágrafos… E em um deles ele basicamente diz que quem não concorda com sua definição está criando um “espantalho”. Para quem no próprio título já pergunta como alguém pode pensar diferente dele, a coisa toda é de uma ironia que salta aos olhos de qualquer um que o leia.

Se o jornalista quiser sair da gaiola e pegar um solzinho, ele pode ver textos interessantes sobre o assunto. Apenas como uma fonte inicial, só para não dizer que não dei dica alguma, indico o texto “Human Personhood Begins at Conception”, do filósofo Peter Kreeft. O texto é sério e o filósofo é preparadíssimo para lidar com a questão. No mínimo dá para aprender como discutir com seriedade o assunto. Uma outra fonte interessante é o livro “Defending Life”, do também filósofo Francis J. Beckwith, no qual até mesmo o difícil caso de aborto motivado por violência sexual é discutido. E dentro de alguns dias será lançado o livro “Contra o aborto”, do professor Francisco Razzo. Há muitas fontes e basta vontade de levar a sério a questão.

Quanto à tentativa de tentar limitar a parte contrária ao aborto apenas aos que professam uma religião, basta uma pesquisa básica na internet para se saber que há secularistas e ateístas que são totalmente contrários ao aborto. Gente de peso como o falecido Christopher Hitchens, como o filósofo Don Marquis e o também filósofo Arif Ahmed, entre outros. Há até mesmo um vídeo bem breve no qual há uma colagem do depoimento destes e de outros. Não é difícil de achar.

Há, por exemplo, as “Feminists for Life”, cujo tema é “Mulheres merecem coisa melhor que abortos”. Aliás, na conjuntura atual isto segue esquecido (melhor seria dizer escondido), mas as primeiras feministas eram radicalmente contrárias ao aborto. Há também os “Secular Pro-Life”, que são ateus e agnósticos contrários ao aborto. Ou, seja, basta o articulista esticar o pescoço acima da cerca e ele poderá ver as coisas mais claramente e talvez consiga entender que a defesa da vida não é coisa de religiosos apenas. E que bom que é assim.

Mas é claro que o que começou mal não podia acabar bem. Passado o soluço de seriedade, o jornalista Carlos Orsi resolveu meter o pé na porta e terminar sua peça em grande estilo.

“O debate em torno da criminalização do aborto parece complicado porque, nele, as pessoas acabam misturando vários outros debates (…)”

Mesmo? Ele escreveu isto depois de passar praticamente todo seu texto criando espantalhos, alguns até bem bizarros, misturando temas e arrogando-se uma profundidade sobre o tema que de forma alguma consegue demonstrar. É ou não patético que Carlos Orsi coloque-se em um pedestal e, em tom professoral, tente abordar um assunto que é sério da forma mais rasteira possível? E é ele que agora diz que o debate torna-se complicado porque “as pessoas” misturam outros debates. As pessoas? Ok.

E a quantidade de obviedades? Exemplo: “Descriminalizar o aborto é autorizá-lo perante a lei, não necessariamente perante o universo das consciências”. Isto é de uma obviedade atroz e está escrito de uma forma mais elaborada, mas é nada mais que o velho clichê feminista/abortista que diz “Não quer abortar, não aborte”. Ele achou mesmo que ninguém iria reparar? É realmente constrangedor que ele ache que um slogan feminista/abortista, e dos mais vazios, acrescenta algo ao debate. É isto também “pensar no assunto”? É esta a profundidade que ele consegue atingir?

Ele, que há pouco estava ensinando que o debate todo é complicado porque outros debates são misturados na questão, já no final de seu artigo até discorre sobre doação de órgãos para reforçar o que ele deve achar que é um argumento. Ele é realmente insaciável. Uma coisa devemos admitir: ele realmente tenta.

Há problemas demais no texto de Carlos Orsi. Trata-se apenas de uma tentativa pífia de entrar em um debate sério. Nada contra, a internet está aí para isto mesmo, mas seu problema com a questão é bem profundo e talvez ele devesse tentar abordar o assunto sem querer construir suas premissas a partir de uma conclusão que ele deseja seja a correta. Talvez uma frase do penúltimo parágrafo deixe-nos visualizar um pouco a raiz do problema:

[falando sobre a mulher] “Por que deve poder forçá-la a pôr sua fisiologia a serviço de um zigoto ou de um embrião, tão capazes de sentimentos quanto uma raiz de cabelo?”

Ele, bem ao contrário da Embriologia Humana que começou citando no início de seu texto, não quer admitir que a partir da concepção já existe um novo ser humano, que é exatamente o que diz este ramo da Ciência. Ele pode ficar brincando de pega-pega com o zigoto até que ele se fixe no útero materno, ele pode tentar impedir que um embrião vá parar em um receptáculo em uma clínica de fertilização artificial (olha aí outro lado do debate…), ele pode ficar ridiculamente dizendo que um embrião é tão capaz de sentimentos quando um fio de cabelo (autonomia? desenvolvimento?) e tudo mais, mas isto não esconde o fato de que ele simplesmente deixa de lado o que a ciência já sabe sobre o assunto.

E é este obscurantismo um dos problemas fundamentais do texto de Carlos Orsi, e sua retórica não consegue esconder este completo despreparo. E sabe o que é mais irônico? O Catecismo da Igreja Católica está anos-luz mais certo do que ele. Que coisa, não?

Mas é claro que ele não deixaria de tentar agradar sua patota uma última vez. Eis o parágrafo final:

“Minha suspeita é de que há uma vontade autoritária, talvez uma pulsão inconsciente, de punir a mulher por ousar fazer sexo – e, pecado dos pecados, por talvez, até, gozar no processo. “Se não queria engravidar, não transasse”. Sim, e se não queria ser atropelado, não atravessasse a rua. A “proteção da vida desde a concepção” é a concepção da maternidade como castigo.”

Que coisa… Ele evitou ir mais a fundo em Teologia e Metafísica apenas para dar uma de psicanalista no final? “Pulsão”, “sexo”, “gozar”´, “castigo”? Isto é que é sério? Isto saiu de quem tem “pensado no assunto”? Isto? Esta psicanálise de fundo-de-quintal é de uma mediocridade tão grande que torna difícil crer que ele queria mesmo ser levado a sério em todo o texto, e não apenas neste trecho. Talvez ele devesse procurar ajuda profissional, pois ele parece ter propensão a sabotar a si próprio, e isto é bem grave em um jornalista, atinge a credibilidade mesmo.

Isto de tentar criar teorias mirabolantes e imaginar pessoas reunindo-se e criando leis, não para proteger a vida humana nascente, mas para castigar quem faz sexo é coisa por demais constrangedora de se ler. E é ele que, exatamente como se tornou comum nos tempos atuais, encara a maternidade como castigo, como coisa negativa, pois é ele que vem tentando, e falhando, convencer que a maternidade não é coisa boa. Só mesmo em sua cabecinha que a maternidade é castigo. Mas, claro, ele tenta jogar esta bola para a quadra adversária. Boa tentativa! E nova falha…

Para o jornalista, não é possível que alguém se disponha a defender a vida humana nascente; isto é coisa de doentes, de autoritários, de gente que quer punir o gozo – “pecado dos pecados” – das mulheres. Eu poderia dizer que é uma piada, mas acho na verdade que isto é algum tipo de projeção de desejos contidos. Porém, é melhor parar por aqui, pois eu, ao contrário do jornalista, prefiro não ficar brincando de psicanalista amador.

“Quando tudo o que se tem é um martelo, todo problema vira prego” – este ditado cabe bem no caso de Carlos Orsi. Tudo o que ele tinha era dizer que tem “pensado no assunto”, demonstrar uns rudimentos de Embriologia Humana ignorando o principal que ela diz sobre a questão, dizer que defender a vida desde a concepção é coisa de religiosos e terminar com chave de ouro acusando quem lhe é contrário de “vontade autoritária” e “pulsão inconsciente”. Talvez tenha achado mesmo que isto devia bastar para fechar o debate. Não deu. Não passou nem perto e ficou feio até.

Carlos Orsi precisa, em primeiríssimo lugar, descer do pedestal e saber que gente muito preparada lida com o assunto de maneira séria, sem preconceitos e sem ficar criando espantalhos e suspeitas. Ou seja, Carlos Orsi precisa abordar o assunto de forma totalmente diferente do que fez neste texto.

Ou então, caso ele insista em seguir nesta linha, eu proponho que ele seja feito porta-voz oficial da defesa do aborto no Brasil. Nada seria mais interessante para a parte pró-vida do que uma pessoa tão preparada sobre o assunto como Carlos Orsi.

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